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Performance de artistas trans agitam as tradicionais ‘loterias’ do Vietnã

29/06/2020

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Mulher com um bilhete de loteria, sorteio é conduzido pela trupe LGBT “Sai Gon Tan Thoi” (Saigon Moderno) na cidade de Ho Chi Minh (Foto: Manan Vatsyana/AFP)

A cada noite em que Nha Vy sobe ao palco com seu vestido tradicional, ou de minissaia e salto alto, para apresentar a festa da Loteria, eventos muito populares no Vietnã, ela esquece as dificuldades que teve de enfrentar como artista trans em sua cidade.

Há alguns anos, cabarés de transformistas itinerantes – que seguem uma tradição da época colonial – percorrem cidades e povoados do sul do país.

Como Nha Vy, seu nome artístico, centenas de membros da comunidade LGTB encontraram nestes espetáculos uma maneira de ganhar a vida e também uma forma de reconhecimento social, em um país comunista, onde a homossexualidade é pouco aceita – tanto na escola, quanto no mercado de trabalho.

“É raro que as pessoas LGTB tenham acesso a trabalhos qualificados já que, em sua maioria, deixaram os estudos antes da universidade (…) E, mesmo se eu tivesse um título [universitário], não me atreveria a me candidatar [a uma vaga em um escritório]”, diz ela à AFP em seu modesto apartamento em Ho Chi Minh.

“Cada vez que estou no palco como mulher, eu me sinto bem”, diz esta artista de 26 anos.

O sucesso dessas festas de Loteria, que misturam música e dança, começou em 2017, depois da vitória do documentário “A última viagem da senhora Phung” (em tradução livre), sobre a vida de um ex-monge que se torna líder de uma companhia transgênero chamada “Sai Gon Tan Thoi” (“Saigon moderno”, em português).

Conhecidos localmente como ‘Grupos de Loteria’, esses grupos viajam por todo o país, trazendo jogos de loteria para cidades e vilas rurais. Rainhas como Phung cantam números ganhadores da loteria a todo vapor, enquanto seus colegas de trabalho realizam jogos e passeios para crianças.

“Este espetáculo nos custou suor e lágrimas. Não apenas para que gostem dele, mas para que as pessoas entendam que é um trabalho de verdade”, explica La Kim Quyen, que desde a adolescência faz parte de vários grupos de “Lo To”, como são chamados no Vietnã.

“Sou feliz com minha vida, com o que consegui”, diz esta artista, de 49 anos, enquanto se prepara no camarim.

Considerado um país relativamente progressista, o Vietnã autorizou as uniões entre pessoas do mesmo sexo em 2015, ainda que sem um estatuto legal. Uma lei sobre a identidade trans está sendo promulgada.

Na vida real, contudo, os homossexuais continuam sendo estigmatizados, ou discriminados, no mundo do trabalho, ou para terem acesso ao sistema de saúde, por exemplo.

Pressionada pelo entorno social, Nha Vy teve um filho com a namorada, quando era jovem. Agora, para ela, o mais importante é que seu filho tenha alguém de quem se orgulhar. (G1 Mundo – Com France Presse)